quarta-feira, 23 de outubro de 2013

As caboclinhas e o preconceito das elites


Normalmente nos espaços institucionais as falas de convidados e autoridades são comedidas e muitas vezes beiram a falsidade. Porém, em raros momentos, em um deslize ou um gracejo, a máscara cai.

Uma das figuras mais conservadoras do jornalismo educacional é, sem sombra de dúvida, o senhor Cláudio Moura Castro. Está sempre disposto a falar as piores diabruras contra os professores, contra os sindicatos, contra qualquer proposta inovadora.

Ontem (22.10) este senhor desferiu todo seu ódio contra o Plano Nacional de Educação m tramitação. Sua queixa é que a sociedade civil está influenciando demais o texto, o qual deveria ser redigido por um grupo de notáveis (ele incluído, obviamente), o que evitaria a incorporação no texto de concessões a estes segmentos de ideias atrasadas.

Pois bem, em determinado trecho, este senhor afirmou que apresentaria a sua proposta para aumentar o "capital humano" em nosso país. Bastaria o governo pagar um bônus para as "caboclinhas" cearenses e pernambucanas para que as mesmas casassem com os engenheiros estrangeiros que estão migrando para estes dois estados, devido a falta de mão-de-obra nacional para setores de extração do petróleo.

Quem são as caboclinhas referidas por este senhor? Todas as mulheres pobres e com baixa escolaridade que vivem no Nordeste. Elas seriam as culpadas por não termos a escolaridade europeia ou americana.

Qual a forma de resolver este problema na visão deste senhor? Importar civilização, ou seja, oferecer nossas mulheres como gueixas ou prostitutas para técnicos estrangeiros civilizados, que portadores de alta escolaridade, ficariam aqui devido a engenhosa estratégia governamental (pagamento de bônus para que as mulheres segurassem os estrangeiros em território nacional) e ajudariam a mudar a visão do povo inculto.

Qualquer semelhança com o olhar do dono do engenho (desde a Casa Grande) para seus escravos (na Senzala) não é mera coincidência. É recorrente o olhar preconceituoso da elite local perante as dificuldades do povo brasileiro.

Acho que pessoas da estirpe do Cláudio Moura Castro vivem o drama de serem elite e terem nascido em um país do terceiro mundo, periférico e cheio d pobres por todos os lados. Não tendo força pra exterminá-los, se isolam em condomínios de luxo, compram casas em Miami, mandam seus filhos estudar na Europa ou nos EUA (procedimento que vivenciamos desde o Brasil Colônia) e arrotam soluções higienizadoras contra a pobreza.

São estas elites que abominam as cotas e chamas médicas cubanas de empregadas domésticas ou de escravas.

O que reforça a permanência e o prestígio de personalidades deste tipo é a falta de reação pública e institucional nos momentos em que as mesmas são sinceras e, em tom jocoso, revelam sua verdadeira visão sobre o povo brasileiro.

Meus avós vieram do Nordeste e foram para o Norte na época do esforço de guerra e da produção da borracha. Meu avô nunca aprendeu a ler e meu pai completou os estudos no Projeto Minerva. Hoje dou aula na UnB e estou terminando o doutorado na USP e sei que o esforço e a dedicação deles me ajudaram a chegar onde cheguei. Se o Estado Brasileiro não tivesse expandido a cobertura da escola pública eu não teria chegado onde cheguei.

Não sei vocês que agora estão lendo este post, mas eu fiquei muito indignado com esta manifestação preconceituosa com os nordestinos, com as mulheres e com o povo brasileiro tão sofrido. Se quase 30 milhões de brasileiros são considerados analfabetos funcionais e se 14 milhões nunca sentaram num banco escolar, certamente a culpa é também desta elite que nos governa desde tempos idos.

Vejam a fala preconceituosa deste senhor: http://www.youtube.com/watch?v=Lvbks5tXeSU
 

6 comentários:

Anônimo disse...

Lamentável mesmo, esse senhor deve ter viajado no tempo do século em que viveu o Domingos Jorge Velho o caçador de índios e escravos, vai ver é contemporâneo dele por lá. Onde será que a máquina do tempo dele ficou estacionada?

Ângelo Rodrigues Alba disse...

Simplesmente revoltante. Não conhêço essa pessoa , e nem quero ter o desprazer de conhecer.
Ângelo Rodrigues Alba - Santos- SP

Anônimo disse...

Outro notório "odiador da educação pública" atende por Gustavo Ioschpe, o "especialista" em educação da "conceituada" e "idônea" revista veja.

Bonanza disse...

Realmente é dureza a situação da educação pública, coisa que não deveria acontecer. A palhaçada toda começou, apesar que antes a educação acumulava problemas sérios, quando constituintes imbecis e da elite, querendo lucrar com a falência da educação pública, deram-lhe o tiro de misericórdia aprovando no texto constitucional, que, trocando em miúdos, o Ensino Fundamental ficaria com os municípios (o que não é bem assim), o Ensino Médio ficaria com os Estados (também o que não é bem assim), e a Educação Superior com o Governo Federal (que também não é bem assim), ainda bem que muitos prefeitos não assinaram até hoje a tal municipalização da educação. Foi aí que a coisa desandou a partir de 1998, quando resolveram cumprir essa lorota de municipalização, em um país, que já trás no sangue o maldito coronelismo imperial. Deveriam ter aguardado mais uns 50 anos para se pensar em municipalização, principalmente nos lugares mais remotos dos grandes centros urbanos, monitorados melhor pelos cidadãos mais conscientes e pela mídia. Infelizmente, o que assistimos hoje na educação nacional, entre as experiências metodológicas fracassadas (verdadeiro escambau ilustrado), desvalorização, preconceitos, etc., e que ninguém se entende, todo mundo quer ser Paulo Freire, Emília Ferreiro, Malba Tahan, etc., uma zorra generalizada onde os alunos levam a pior - fracassam e os professores na ponta do sistema, levam a culpa.

Bonanza disse...

Aliás, vocês devem lembrar, esse desgoverno que está aí e que promoveu a falência do Ensino Fundamental e do Médio aqui no Pará, naquele desgoverno já do Almir ( …..Fujão) e depois do “Preguiça”, alardearam que com a municipalização, o Estado focaria no Ensino Médio trazendo grandes avanços, tudo lorota, o Fundamental vive seus piores índices do Ideb e o Médio virou um abandono só, quem acreditou, se ferrou!!!!

Xico Rocha disse...

Sinceramente, não sei o que um elemento desse faz aqui no Brasil, ele que vá com malas e cuias para os raios que o parta, se ele reúne todas as condições, financeiras, econômicas, "intelectual" e todas as outras que ele considera necessárias, que vá viver em qualquer outro lugar que não o Brasil.